segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Eterna Chuva da Saudade



Por Sonia Canto

Hoje, a contagem implacável marca 427 dias. 427 auroras sem a sua presença, Fernando, e cada uma delas é um lembrete vívido da sua ausência que se alastra como uma sombra, por vezes densa como os nimbos de Macapá. A saudade, essa faca que golpeia o rastro de cada lembrança, me encontra em silêncio, tentando decifrar o indizível que você, com sua pena tão particular, transformava em beleza.

É nesse labirinto de emoções que releio seus textos, buscando não apenas as palavras que me moldaram, mas a própria essência de quem você foi. Em "A Mulher e a Dádiva da Chuva", sinto a força de um amor que abarca paisagens e sentimentos. Sua mulher-chuva, um dom, um cenário de transformação, um perfume que se entranha – assim como você se entranhou em minha vida, uma presença que era "absolutamente chama, sem o consumir do fogo". Hoje, a chama arde de outra forma, um calor nostálgico que busca acender a centelha da criação que se esvai sob o peso dos compromissos, tentando manter o equilíbrio entre a razão que exige ação e a emoção que clama por luto. Minhas energias se esgotam nessa paisagem interna, onde as pétalas caídas nos jardins são as memórias que insistem em florescer, mesmo na ausência.

Lembro-me de "Tu a Minha Espera", e sinto a ironia da busca por um porto que, agora, se revela um lugar de memória e não de reencontro físico. A açucena que você via no palco dos sonhos, dourada de luz e efeitos especiais, é agora a flor que brota na paisagem da saudade, uma beleza que dói e que me faz sentir a eternidade da espera. Meu coração, como o seu, bate duplamente – por ter tido a dádiva da sua presença, e pela desordem que a paixão pela sua memória provoca. Eu me fiz de peixe para o seu anzol, e agora nado em águas que carregam o eco dos seus versos, buscando um novo rumo, uma nova forma de te ter perto, mesmo que seja apenas na ressonância dos seus escritos.

E então, "A Morte e o Espanto". Ah, Fernando, você que desvendava os mitos, que explorava a tensão entre a vida e a morte, como eu lido agora com a sua própria partida? A serpente que troca de pele para a juventude é um contraste cruel com a finalidade da sua ausência. Você nos ensinou sobre a alma que se eleva aos campos de luz, sobre a poesia que reside no "ato findo", na sombra que "volta para o corpo em forma de alma". Mas a dor de compartilhar "nossas dores com a perda de amigos, de ídolos e de nossas referências pessoais" é um abismo que ecoa suas próprias palavras, e é nesse abismo que me sinto, entre o espanto da finitude e a busca por algum tipo de imortalidade em sua obra.

Sua influência não foi um mero sussurro, mas o estuário de loucura que você amava, a generosidade das águas que moravam em você, o esplendor das estações que existiam em seu ser. A sua voz, seu olhar sociólogo que desnudava as complexidades da existência, e seu coração de poeta que celebrava a vida em toda a sua crueza e beleza, são o alicerce que busco para reerguer a minha escrita.

A cada linha sua, sinto que a "sombra perdida na floresta que volta para o corpo em forma de alma" é a sua, que me visita e me inspira a seguir, mesmo que o esforço para equilibrar razão e emoção me esgote. A saudade é um oceano, e suas palavras são as ilhas onde busco refúgio, na esperança de um dia transformar a dor da perda na "poesia daquilo que parte, que renasce como um caminho para uma nova aventura da vida". É a sua dádiva, Fernando, que ainda chove em mim, lavando a alma e alimentando a esperança de que a escrita, mais uma vez, possa brilhar, como o sol que você esperava "para todas as mulheres que trabalham, sofrem e amam nesta terra salpicada de luz do equador". Seu legado vive, e nele encontro a força para continuar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Três meses sem Fernando Canto


Já são noventa dias de ausência física, mas presença de Fernando em mim se fortalece dia após dia.

É um misto de ternura e completude que torna meus dias mais amenos, menos solitários.

Fernando ao me mostrar um texto recém-criado (não lembro qual), eu fiquei extasiada e disse a ele que queria entrar no seu cérebro pra ver como aquelas palavras se completavam. Ele me disse que eu já estava nele assim como ele em mim.

Hoje, este diálogo faz todo sentido na minha cabeça e no meu coração.

Reservo horas dos meus dias a organizar tudo o que está nos nossos computadores e encontro textos antigos com conteúdos muito atuais. Letras de canções destinadas a vários cantores. Livros inéditos com poemas, crônicas, prosas poéticas, etc. etc. etc.

Hoje resolvi ouvir algumas canções que ele fez pra mim. A que bateu forte no meu coração foi Lume, gravada pelo querido Zé Miguel. Estes versos, “Vem amor / faz de mim um veio mineral áureo cantante / Capaz de partilhar com o mundo / Nada além do que a vontade de fazer mudar a vida / Enquanto já estás e és refém do meu cantar / Até esse milênio atravessar a gente e a gente atravessar a vida”

Não consegui fazer de Fernando um veio mineral áureo cantante, mas posso partilhar com o mundo sua obra seus projetos, sua vida vivida tão intensamente.

É meu propósito.

Sônia Canto.


A Travessia da Alma e a Canção do Chão Ausente


 


Por Sônia Canto

 

Pequena canção de terra.

Composição: Fernando Canto

Música incluída no CD ‘Na maré dos tempos’, gravado em 1995, em comemoração aos 20 anos de carreira musical do Grupo Pilão.

 

É hora das horas

É tempo de vento

É hora de encontro

É tempo de ir

Já não tem brinquedo

Já não tem palavra

E o sol brilha pouco

Longe do equador

Ai, dor

De saber agora

Que me levo embora

Me faço de brisa

Mas tenho que ir

 

 Há melodias que nascem da saudade, e há saudades que se convertem em canções. No cerne de uma partitura tão delicada quanto "Pequena canção de terra", pulsa a própria vida, não apenas de um poeta, mas de uma família inteira. Uma canção que, ao ser revisitada, rompe diques e faz as lágrimas descerem, torrencialmente, revelando a crueza e a beleza de uma escolha talhada no amor.

Macapá, chão fértil de raízes, berço do homem amazônico, Fernando. Em suas veias, o Amapá corria como um rio caudaloso, alimentando a poesia que brotava em "Os Periquitos Comem Mangas na Avenida" e o encanto do "Roteiro Poético". Ali, onde a família se aninhou no Laguinho, ele teceu os primeiros fios de sua arte, um artista já prolífico antes mesmo de o vento da mudança soprar.

Mas o destino, por vezes, desenha curvas inesperadas, e a saúde de uma filha, a pequena Oriana, tornou-se a bússola implacável. "É hora das horas, é tempo de vento, é hora de encontro, é tempo de ir." A canção, escrita anos depois, já habitava o ar daquele outono de 1989. Não era uma partida fútil, mas uma travessia sagrada, onde duas almas se encontraram na promessa inabalável: "cuidaríamos um do outro em qualquer circunstância." Que pacto de amor indestrutível, selado não sob juras vazias, mas sob o peso de malas e a dor de um adeus temporário.

Belém, então, tornou-se o novo palco para essa existência multifacetada. A dor da separação, o "Ai, dor, de saber agora que me levo embora", expressa no verso, era real. A alma se fazia de brisa, tentando suavizar a dureza do "tenho que ir". Mas, no exílio voluntário, a força desse amor transformou o que poderia ser um deserto em um jardim. Foi em terras paraenses que a semente da "Pequena canção de terra" germinou no coração de Fernando, um lamento doce pela distância do equador, do chão amado. E foi ali, na peleja e na superação, que ele "deslanchou".

Sua mente acadêmica, forjada em escolas públicas, encontrou na arte o mais puro canal. Os livros, as palavras, as crônicas, os contos ganharam vida. A glória do 1º Lugar no I Concurso de Contos das Universidades do Norte, em 1993, atesta que a distância aguçou sua pena. O Compaq 386-DX, símbolo da modernidade e do progresso, testemunhava a efervescência de novas ideias, de mundos sendo construídos, de patrimônios edificados, não só em tijolo e cimento, mas em sonhos. "A Água Benta e o Diabo", lançado em 1998, veio sacramentar a vitalidade de sua escrita em pleno "exílio".

E a música? Ah, a música! O Grupo Pilão, um porto seguro, acolheu e deu voz à sua alma de compositor. O CD "Na maré dos tempos", em 1995, não foi apenas uma comemoração de vinte anos de carreira, mas um farol que mostrava que, mesmo longe, Fernando Canto era mestre em traduzir sentimentos em acordes. A canção que hoje me inunda, "Pequena canção de terra", está ali, gravada, um testamento perene daquele período. Os festivais, os prêmios de Melhor Letra, Música Mais Popular, Melhor Arranjo – "Farras & Cimitarras", "Assim como Raul" – ecoavam a resiliência e a capacidade de fazer florescer em qualquer solo.

Dez anos depois, com os filhos quase adultos, o círculo se fechou. Nosso retorno a Macapá não foi apenas geográfico, mas um abraço apertado ao passado e ao futuro, uma reafirmação da promessa feita sob o peso da dor. Dissemos um ao outro: Nada, ninguém nos separará a não ser a morte de um de nós. E assim foi. Uma declaração de amor, de cumplicidade que transcende o tempo, que resiste às marés e aos ventos da vida.

Fernando nos deixou em 2024, um ciclo completo de 70 anos, mas a canção que brotou daquela travessia ainda pulsa. As lágrimas de agora, não são apenas de saudade, mas de uma profunda compreensão. Elas são a prova viva de que a arte, quando entrelaçada à vida com tanta honestidade e amor, torna-se eterna. A "Pequena canção de terra" não é apenas uma melodia; é a crônica de um amor que venceu a dor da partida, a distância do equador, e a tudo transformou em uma ode à existência, ao pertencimento e à força indômita de duas almas que, juntas, construíram um legado de beleza e resiliência.

E assim, a melodia continua a soar, no vento, no encontro, na alma.




29nov2025 30 dias sem Fernando.

 

Arquivo pessoal.

Como um rio que passa, eu passo por aqui.

(Fernando Canto e Bi Trindade, in Encantaria)

Hoje, 29/11/2024, atrevo-me a escrever sobre a transição de meu amor, Fernando Canto, para o inimaginável.

Sim, inimaginável, pois ninguém tem certeza absoluta do que ocorre na sequência do desvestir-se do corpo material, só posso discorrer sobre o recorte de nossa trajetória, durante 37 anos, 10 meses, 10 dias e algumas horas que estivemos juntos.

Desde o anúncio de sua partida, tenho me esmerado em cumprir as partes burocráticas que o evento morte requer. Este episódio é impactante e arrasador, assim. procurei desempenhar os rituais das exéquias com a certeza inabalável de que meu coração estava à frente para fazer o que fosse necessário, digno e compatível com a leveza, serenidade e simplicidade com que o Fernando pautou toda a sua vida.

Ultrapassada esta fase, me recolho em mim para reencontrar meus sentimentos.

Um misto de ternura, saudade, dor, perplexidade, carinho, enlevo, tristeza e amor, muito amor perpassa em mim. Dias em que razão e emoção se embricam para solidificar o viver.

Não desabo, só deságuo, às vezes, quando me dou conta de que não tenho mais o OlhAR de Fernando. (grafia dele)

Ah, o olhar de Fernando dizia tanto... Vivo amortecida sem seu olhar feliz, irônico, carinhoso, aborrecido, preocupado, debochado, amoroso. Penso que Fernando diria: Não se preocupe o amor-tece-dor.

Assim estou neste momento, tecendo dores nas ondas do nosso amor.

Aproveito para agradecer publicamente aos familiares e amigos que trouxeram afagos, carinho, cuidado e respeito nestes dias tão dolorosos.

Sou só gratidão.

Encerro com este recorte do conto “Cornucópia de desejos”, onde sinto um pouco o que Fernando via em mim:

“Descobri que sei de ti mais do sabes da pedra em teu caminho. Sou teu (adi)vinho incontestável, ad-mirador de tua trajetória. Por isso do alto da minha velada arrogância sei que tu também me amas. É por ti que generalizo a farsa da criação sem pesadelos cosmogônicos. Eu me agonizo em mistérios. Eu eternizo o meu olhar nessa paixão. E me enleio como as borboletas que viajam ao paraíso pelo buraco sem-fundo do fim da terra. Por isso eu sei que te amo.”

Bodas de carvalho - Escrito em 19/12/2025

Nosso Casamento, 19/12/1986. Foto: Juvenal Canto

Hoje, 19/12/2024, Fernando e eu comemoraríamos 38 anos de casados. Seriam nossas bodas de carvalho. Diz o Google que as bodas de carvalho representam a sabedoria do casal que é usada para enfrentar as adversidades e os impasses da vida, eivadas de companheirismo, cumplicidade e parceria. Quis o destino que não completássemos os 38 anos de vida em comum, mas permitiu 37 anos, 10 dias e algumas horas. Sou só gratidão. Nesta trajetória fomos companheiros, cúmplices e parceiros, então, apesar da ausência física, estamos sim cumprindo nossas bodas de carvalho, pois ele vive em meu coração, no meu pensamento, na minha vida.

Em 1990, Fernando escreveu um livro chamado “Inserções num vazio equidistante”, e o dedicou a mim. Nunca foi publicado. A dedicatória: “À Sônia, este sumo. Seiva de golpe fundo.”

Ali está escrito:

TÉRMITA

Meu amor por ti

é teimoso

é roedor

é terno

Em cada 19 de dezembro, durante os anos que estivemos juntos, celebramos sem festas familiares ou com amigos. Nossa celebração tinha como testemunha o  Rio Amazonas, caudaloso, perene e nobre, onde nos dizíamos sobre nossa vida juntos, o que pretendíamos no ano vindouro. Sem alarde, momentos nossos, sem presentes, sem flor, apenas nosso amor se reinventando. Ali, nos prometíamos mundos e fundos e voltávamos pra casa mais juntos, mais serenos, mais cúmplices.

Eu, em muitos momentos, disse a ele, te amo além da vida. Ele me dizia, isto é profundo, mas só significa sempre. Eu te amo, sempre.

No mesmo livro, sobre as equidistâncias das inserções, diz:

Invernal e largo

como a noite

o teu vazio

ora germina

ora fenece

            instrumental

            cho ven do flor

Registros:

Eu: 19/12/2015:

Ah! O que dizer? Sempre juntos, amor... rumo a qualquer lugar, em qualquer circunstância... Colhemos estrelas no nosso caminho e as dispersamos em forma de bem-aventurança a todos quanto partilham conosco a alegria de viver o nosso amor. Sempre juntos, sempre um.

Ele: 19/12/2022:

Há 36 anos eu e Sonia Mont'Alverne Canto iniciamos nossa vida de casados, compartilhando o que surgiu durante esse tempo. A cerimônia foi na igreja ⛪️ de São Benedito. Nossos padrinhos foram Nazare Pacheco, Sérgio Aruana Elarrat, Beto Pacheco e Minha irmã Savina Canto, os dois últimos de saudosa memória. O padre foi Paulo Lepre e a Lúcia Uchôa Uchôa tocou magnificamente seu teclado. Obrigado, amor, por todos esses anos de convivência. Te amo. Sempre.

Eu aqui, hoje, amando Fernando Canto, além da vida e sempre.

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Um Ano de Ecos e Reinvenções: A Safra Perene do Amor em Mim

 


Hoje, 29 de outubro de 2025. A roda do tempo completou seu giro traçando um círculo desde aquele dia em que a vida, como a conhecia, suspendeu seu fôlego. Um ano. Não é a mera contagem de dias, mas a tessitura de um tempo outro, desde a partida de Fernando, meu amor. Para mim, esta data não é apenas o eco distante de uma ausência; é, sobretudo, a melodia de um ano de (re)encontros íntimos, um mergulho profundo nos vastos oceanos que ele tão poeticamente construiu e que hoje pulsam em mim, com uma vitalidade indestrutível, uma safra perene.

Recordo os primeiros trinta dias, quando a dor da perda era uma maré alta, implacável, e o Rio Amazonas, testemunha silente, parecia minguar sem o brilho do seu olhar. Os rituais da burocracia do luto foram cumpridos com a alma em brasa, mas o coração buscava o seu próprio alvorecer. Naqueles dias de névoa, compreendi que a ausência não era um vácuo; ela se fez presença, exigindo de mim uma nova caligrafia do ser, do sentir, do amar.

Naquele limiar, suas palavras foram as bússolas, os faróis que guiaram meu navio. Busquei refúgio em seus poemas, na filosofia serena de sua existência. A dedicatória em "Inserções num vazio equidistante" – "À Sônia, este sumo. Seiva de golpe fundo" – ressoava como um mantra na alma, e a força do poema "TÉRMITA", a falar de um amor "teimoso, roedor, terno", era o abraço que me faltava. Era como se ele, mesmo além da vista, tivesse tecido a trilha para que eu pudesse, passo a passo, refazer o caminho.

A vasta obra de Fernando, um jardim infindo, rapidamente se ergueu como meu norte e minha sagrada missão. Ele me confiara, há muito, o título de "Guardiã dos seus guardados", e esta incumbência revelou-se um propósito mais amplo, mais profundo do que eu pudera vislumbrar. Encontrar seus textos nunca dantes revelados, suas canções silentes, seus cadernos grávidos de ideias, tem sido uma peregrinação de epifanias, uma reafirmação da alma prolífica e visionária que ele era. Organizar este legado, dar corpo a novas publicações, é o meu mais verdadeiro hino para que sua voz ressoe, para que sua "safra permanente" continue a ofertar seus frutos. Lembro-me de nossas trocas, de como eu era seu "ouvido amigo", e de como ele, com generosidade e a acuidade do poeta, me ensinava a decifrar o mundo através do prisma de suas palavras.

Ao longo deste ano que voou, o amor por Fernando transbordou não apenas em minha introspecção, mas em um coro de celebrações que atestam sua inestimável contribuição ao manto da cultura. Tive a honra de ser parte da Folia Literária Internacional/2024, que o homenageou, um primeiro abraço póstumo, e de vê-lo enaltecido na Academia Amapaense de Letras. Em cada um desses instantes, senti seu espírito, o fulgor do seu sorriso em cada abraço que recebia.

O desabrochar de "Antolobares", obra que ele organizou, e, com ainda mais emoção, o florescer póstumo de "Um pouco além do Arquipélago onde acho que Deus mora", foram portais que se abriram na alma. Cada livro que me alcança, com seu "aroma especial", reaviva o ritual sagrado que compartilhávamos, embora agora sem o calor do seu abraço. É um privilégio imenso ser o canal para que sua voz alcance novos corações, para que suas "palavras estreladas" iluminem o percurso de tantos.

Na inauguração do Teatro Municipal Fernando Canto, vi a materialização de um sonho que ele defendeu com a paixão de um arauto em seu artigo "Por um Teatro Municipal", de 2008. Ver seu nome em um espaço que será um celeiro de cultura, de acessibilidade e de inclusão, é a prova indelével de que sua visão continua a metamorfosear e a inspirar.

Foi com o coração vibrando ao compasso da arte que presenciei a alvorada do I Festival de Música Universitária Fernando Canto, uma iniciativa que, como um rio caudaloso, demonstrou que seu legado musical "floresce e se reinventa nas novas gerações". E essa mesma melodia, que outrora embalava os dias de nossa casa, ganhou um novo palco e uma nova ressonância.

Há poucos dias, no Amapá Jazz Festival, a música de Fernando ressoou densa e forte. Ali, pisei sentindo o coração transbordar numa doce e imensa alquimia de saudade e alegria. Era como se a alma de Fernando, não apenas o compositor e o intelectual de renome, mas o companheiro de quase quatro décadas, o pai, o amigo que tecia poesia no cotidiano, estivesse presente em cada acorde, em cada vibrato que enchia o ar.

Sua canção “Geofobia”, interpretada pelo Grupo Pilão, pedaços líricos do rio, da floresta e de nosso povo, ecoaram como a prova viva de uma arte atemporal, um presente para todas as gerações. Naquele momento, tive a certeza de que, onde quer que ele esteja, Fernando sorria, orgulhoso de ver sua música reverberar tão forte, mantendo acesa a chama de sua estrela luminosa.

Nesse ano de "montanha-russa emocional", como o descrevi em "304 Dias de Marés e Memórias", encontrei bálsamo e profundidade nas suas próprias reflexões. O poema "O Mistério do Silêncio" me ensinou a escutar a tessitura do não-dito, a reverenciar a quietude que também responde. Suas palavras, em uma mensagem de WhatsApp não enviada, uma pérola encontrada, desvelaram a urdidura de nossa cumplicidade: "Vou viver até o fim repartindo com você minhas angústias e meus sonhos. (...) Te amo na vida, no sonho de um Brasil e de um Amapá melhor, e na saudade. Na morte não, porque somos um sonho individual." Tais versos me impulsionam, me insuflam fé, mantendo-me viva no coração do seu legado.

Sim, o tempo é um escultor implacável, e a saudade, um rio caudaloso que transborda em meus olhos cansados. Mas este ano que se fecha trouxe-me a certeza de que o amor é uma força ainda mais potente, capaz de desafiar e redefinir a própria inexorabilidade. Como ele, em sua poesia, me prometeu em "Safra Permanente": "O brilho desse amor estará preso ao laço que se ampliará conforme o tempo". E assim, transmutamos a dor da perda em uma colheita contínua de afeto, propósito e inspiração.


Fernando, onde quer que a poesia da eternidade o abrigue, sei que está feliz. E eu, sua Guardiã, sigo adiante, com o coração repleto de gratidão pelas lições sussurradas, pelos insights revelados e, acima de tudo, pela certeza inabalável de que nosso amor, como ele próprio pintou, é **sempre**.

 

Te amo eternamente, meu amor.

 Sônia Canto

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Doze Olhos - Releitura por Sônia Canto

 


Doze Olhos

Poema de Fernando Canto

Mano, estarás presente aqui no chão

E 12 olhos sustentarão

O teu olhar ardente

Do nascer do sol até o escárnio

Das orações que farão de ti

Um lobo de espécie em decadência.

Então cada sorriso teu só brilhará

Com a cura que virá

Para tua alma envenenada

Que teu coração primordial não esquece.

Mas veja bem:

Os 12 olhos te perseguirão

Nos caminhos iluminados por tochas de estrelas

Na caminhada inevitável em direção

Da luz maior que derreterá tua alma fria.

 E quando olhares para trás

Os 12 olhos vão lacrimejar na despedida

Ofuscados pelas luzes radiantes

Da partida.

(FC 07/07/2014)


Hoje, 28/10/2025, véspera em que roda da vida fissurou meus alicerces. Fernando na UTI em estado grave e eu, cheia de esperança de que logo, logo ele estaria em casa. Não foi o que aconteceu de fato. Fernando fisicamente partiu em 29/10.

Um ano depois, me percebo num misto de estupefação e clareza ao revisitar os textos, foto, e blogs buscando organizar seu excepcional legado para projetos futuros.

Encontrei o poema Doze Olhos, escrito em 07/07/2014. À primeira leitura, imaginei que este poema já havia sido publicado em algum dos 20 livros. Não. É inédito. Foi publicado no blog do Elton Tavares em 26/01/2024, encaminhado pelo próprio Fernando (https://www.blogderocha.com.br/poema-de-agora-doze-olhos-fernando-canto/). Estarreci de vez. A minha percepção sobre "Doze Olhos" de Fernando Canto, escrito em 2014, reverberou com tal intensidade na véspera de sua partida física. Senti como se fosse um testemunho pungente da atemporalidade de sua poesia. Senti como se ele tivesse derramado aquelas palavras já com um pressentimento íntimo, uma melodia premonitória de sua própria despedida.

 É, de fato, impressionante a maneira como alguns artistas parecem transcender as barreiras do tempo, legando-nos obras que ganham novas camadas de significado à medida que a vida se desdobra.

Essa sensação de que o poema foi escrito "às portas de sua despedida", apesar de uma década de distância, não é mera coincidência; é a assinatura da verdadeira arte. Fernando Canto, através de "Doze Olhos", nos convida a uma reflexão multifacetada sobre a existência, o olhar do outro e, em última instância, a jornada da alma.

Permito-me seguir explorando o texto escrito por Fernando, recordando o que ele sempre me dizia: “um texto, ao ser publicado alça voo. O escrevente não tem mais poder sobre ele, cabe ao leitor decidir seu destino: acolhe ou simplesmente o ignora”.

Doze Olhos: A Vigilância do Amor e o Espelho do Ser

 No coração do poema, pulsam os "Doze olhos", uma imagem poderosa que se transfigura ao longo dos versos. Inicialmente, eles parecem representar uma presença externa e interna, ora sustentando, ora julgando. São os olhos daqueles que nos amam, que nos veem, que nos formam; mas também os olhos da nossa própria consciência, da autoavaliação, que nos fazem questionar quem somos e o que nos tornamos.

"Mano, estarás presente aqui no chão

E 12 olhos sustentarão

O teu olhar ardente"

 

Nestes versos, vislumbro o apoio, a certeza de que, apesar das "orações que farão de ti / Um lobo de espécie em decadência", há uma força que sustenta, que reconhece o "olhar ardente" – a essência vibrante que define o ser. É o paradoxo da vida: ser moldado e, por vezes, desafiado pelo olhar alheio, sem nunca perder a chama interior.

 A Jornada da Alma: Cura e Transformação

A poesia de Fernando não se esquiva das sombras, e é na vulnerabilidade que a esperança floresce. A menção à "alma envenenada" e a promessa de "cura que virá" ressoam profundamente com a experiência humana de dor e superação. Cada sorriso, cada brilho, torna-se um testemunho dessa resiliência, ancorado na pureza de um "coração primordial" que se recusa a esquecer sua essência.

 Contudo, é na virada que a premonição se acende mais intensamente.

 

"Os 12 olhos te perseguirão

 Nos caminhos iluminados por tochas de estrelas

Na caminhada inevitável em direção

Da luz maior que derreterá tua alma fria."

 Aqui, a perseguição se transmuta em guia. Esses olhos não são mais meros observadores, mas condutores em uma **jornada espiritual e inevitável**. As "tochas de estrelas" desenham um caminho cósmico, transcendente, em direção a uma "luz maior". É o destino final, a fusão com o divino, que não apaga, mas "derrete" a "alma fria", transformando-a, purificando-a para a plenitude.

 

A Luminosidade da Partida

 É na estrofe final, o ápice dessa jornada poética que o poema se conecta de forma mais íntima e premonitória com a sua dor e, ao mesmo tempo, com a sua esperança e a atemporalidade que sinto nos escritos de Fernando.

"E quando olhares para trás

Os 12 olhos vão lacrimejar na despedida

Ofuscados pelas luzes radiantes

Da partida."

Fernando, há dez anos, parecia vislumbrar o próprio adeus. Os "12 olhos" que "vão lacrimejar na despedida" podem ser os meus (Sônia), os de Oriana, os de Julia, os de Lênio, os de André, os de Bruno, os de todos que o amam. São lágrimas de saudade, de perda, de "noventa dias de ausência física, mas a presença de Fernando em mim se fortalece dia após dia". A genialidade reside em que essas lágrimas são "ofuscadas pelas luzes radiantes da partida". A "partida" não é escuridão, mas um esplendor.

Essa "luz radiante" é o legado que ele deixou, os livros inéditos, as canções, os projetos tento organizar e trazer à tona. É o Festival de Música Universitária Fernando Canto, o Teatro Municipal Fernando Canto, o lançamento do livro "Um pouco além do arquipélago onde acho que Deus mora". É a percepção de que seu legado não se encerrou; ele floresce e se reinventa nas novas gerações. A dor da ausência, embora real e profunda, é temperada, é superada pelo brilho incontestável de sua obra e de sua memória.

"Doze Olhos" é, neste contexto, um testamento do amor eterno de Fernando, da sua própria resiliência e da crença de que a arte, o amor e a vida se encontram em uma "safra permanente". Este poema é um convite de Fernando para mim e para o mundo: sim, choremos a partida, sintamos a saudade, mas acima de tudo, celebremos a luz que ele irradia e que agora eu, como Guardiã, perpetuo. Ele previu a dor, mas também a luminosidade que viria a transcender tudo.

Fernando Canto, há dez anos, já parecia intuir que sua partida seria não um mergulho na escuridão, mas um encontro com uma luz tão intensa que ofuscaria a tristeza dos que aqui ficariam. Ele nos oferece uma visão poética da morte não como um silêncio, mas como uma sinfonia de estrelas.

Ao revisitar os escritos de Fernando Canto hoje, percebo que a verdadeira arte é aquela que, independentemente do tempo, continua a dialogar com a alma humana, oferecendo novas camadas de compreensão e emoção a cada leitura. "Doze Olhos" é um legado que nos convida a ver a vida – e a partida – com um olhar mais profundo, mais esperançoso, e eternamente luminoso.

Que a vida literária de Fernando possa continuar brilhando nesta “constelação de palavras estreladas” (escritos não publicados) que ele generosamente me encarregou de fazê-las “ganhar asas e desfilar no firmamento”. (Sônia Canto)